Artigo escrito pelo Hugo Nisembaum
Assisti uma entrevista conduzida por Tal Ben-Shahar com Adam Grant, foi destacada uma pesquisa realizada por Grant e Amy Wrzesniewski, uma das criadoras do conceito de Job Crafting. O estudo foi desenvolvido em uma empresa de tecnologia listada entre as Fortune 500, com o objetivo de analisar como os funcionários podem transformar de maneira mais profunda suas experiências de trabalho.
Mentalidade de Crescimento Duplo: Pessoa e Trabalho como Maleáveis
Os pesquisadores propuseram que mudanças substanciais no ambiente de trabalho são possíveis quando os colaboradores adotam não apenas a mentalidade de crescimento sobre si mesmos, mas também sobre o próprio desenho de suas funções. Esse conceito, denominado mentalidade de crescimento duplo, sugere que tanto o indivíduo quanto o trabalho podem ser moldados e aprimorados ao longo do tempo.
Impacto na Felicidade dos Funcionários
A investigação analisou o impacto dessa abordagem na felicidade dos funcionários ao longo do tempo. Os resultados indicaram que quando os colaboradores enxergam tanto a si mesmos quanto suas funções como passíveis de transformação, eles conseguem promover mudanças mais significativas em sua experiência profissional, resultando em maior satisfação e bem-estar duradouro.
E ficou claro que a ampliação de autoconsciência deve acompanhar mudanças nas circunstâncias ou situação para que o impacto no bem-estar seja sustentável no tempo.
E como temos certezas de que “não existem coincidências”, nós estávamos preparando a apresentação sobre aplicação da nossa metodologia de Job Crafting para o 16 Congresso Europeu de Bem-estar Laboral realizado em junho 2024 em Granada, Espanha.
E os nossos resultados foram convergentes aos encontrados no estudo de Adam e Amy.
O nosso modelo inicia com a definição da estrategia individual, aplicando a Matriz SOAR, (Strenghts, Aspirations, Opportunities and Results), e um assessment de talentos e potencial, ambos promovem uma ampliação de autopercepção e estimulam a mentalidade de crescimento, para a partir de ali propor o seu redesenho do trabalho (job Crafting) tanto de tarefas como de relacionamentos, respondendo aos desafios e necessidades da estrategia da empresa. E desta maneira estimular a prosperidade de mão dupla, individuo-empresa.
Importante destacar que com o nosso modelo também propomos redesenhar os trabalhos das equipes, ou seja, o que chamamos de Team Crafting.
E recentemente, na Conferência MindSummit, realizada em São Paulo, um evento com a participação de Tal Ben-Shahar, Adam Grant e o Professor Jan Emmanuel De Neve, o tema Job Crafting voltou à tona, como uma intervenção que contribui ao significado, bem-estar e produtividade, energizando os indivíduos e as empresas que o praticam.
Jan Emmanuel De Neve no MindSummit em São Paulo
E achamos interessante para enriquecer as perspectivas, compartilhar com vocês as diferentes abordagens.
O conceito de Job Crafting (Redesenho do Trabalho) — a capacidade de os funcionários ativamente remodelarem suas tarefas, relacionamentos e a percepção de seu trabalho — tem sido amplamente reconhecido como uma poderosa alavanca para o engajamento e a produtividade.
No entanto, a pesquisa mais recente demonstra que, para que o Job Crafting gere benefícios sustentáveis, ele deve estar inserido em uma visão mais holística do bem-estar. Não se trata apenas de mudar o que fazemos, mas de mudar como pensamos sobre quem somos e o que é possível em nosso ambiente de trabalho.
Abaixo, exploramos três fontes essenciais que comprovam a conexão entre o redesenho do trabalho e ganhos duradouros em diversas dimensões do bem-estar.
1. A Importância da Dupla Mentalidade de Crescimento (Dual-Growth Mindset)
O artigo "Getting Unstuck: The Effects of Growth Mindsets About the Self and Job on Happiness at Work" (Berg, Wrzesniewski, Grant, Kurkoski, & Welle, 2023), publicado no Journal of Applied Psychology, introduz um achado fundamental: o conceito de Mentalidade de Crescimento Dupla (Dual-Growth Mindset).
O estudo argumenta que, embora pesquisas anteriores tenham focado nos benefícios de ver o self (habilidades e traços) como flexível (self-growth mindset), os funcionários fazem mudanças mais substanciais se também considerarem o design de seus trabalhos como maleável (job-growth mindset).
Principais Achados de Berg et al. (2023):
Fomentar uma Mentalidade de Crescimento Dupla — encarar tanto o self quanto o trabalho como maleáveis — resultou em ganhos duráveis na felicidade dos funcionários, que se mantiveram por pelo menos 6 meses, conforme medido em dois estudos experimentais.
Fomentar a mentalidade de crescimento sobre o self ou sobre o job isoladamente foi insuficiente para gerar aumentos sustentáveis na felicidade.
Análises de mediação sugerem que a Mentalidade de Crescimento Dupla impulsionou a felicidade ao permitir que os funcionários planejassem um Job Crafting mais substancial.
Mudanças pequenas (resultantes de ajustar apenas o self ou o job) são rapidamente vencidas pela "esteira hedônica", enquanto o DGM estimula mudanças agênticas substanciais que são menos suscetíveis a esse efeito.
2. Job Crafting como Potencializador de Engajamento e Significado no Brasil
O material "Career Development, Job Crafting, and Well-being: An Evidence-Based Positive Psychological Intervention" (Ortega-Maldonado, Nisembaum & Nisembaum) descreve uma Intervenção de Psicológica Positiva (IPP) realizada com participantes do setor industrial e de serviços no Brasil.
Principais Achados junto a Ortega-Maldonado .:
A intervenção, que combinou Job Crafting com desenvolvimento de carreira (incluindo avaliação de forças e alinhamento com desafios organizacionais), confirmou que intervenções intencionais de Job Crafting e desenvolvimento de carreira podem atuar conjuntamente como ferramentas poderosas para aumentar o bem-estar psicológico dos funcionários.
Os participantes alcançaram altos níveis de Job Crafting (M= 4.74) e, subsequentemente, altos níveis de Engajamento no Trabalho (Work Engagement) (M= 5.16, situando-os entre o 75º e o 95º percentil na escala UWES-9).
Este mecanismo permite aos trabalhadores encontrarem novas oportunidades de contribuir com seus pontos fortes, valores e interesses ao redesenhar tarefas e relacionamentos, alterando a percepção do impacto e significado de seu trabalho.
O documento reforça a ideia (conforme o artigo de Berg et al.) de que mudar trabalhadores e trabalhos simultaneamente (Growth Mindset e Job Crafting) resulta em efeitos duradouros após 6 meses.
3. A Visão Holística: Job Crafting no Playbook de Bem-Estar
O "Work Wellbeing Playbook: A Systematic Review of Evidence-Based Interventions to Improve Employee Wellbeing" (Cunningham, Fleming, Regier, Kaats, & De Neve, 2024), resultado de uma ampla revisão sistemática, identifica o Job Crafting como uma intervenção chave para diversos drivers de bem-estar.
O Playbook confirma o papel do Job Crafting (capacidade de proativamente remodelar tarefas e relacionamentos para melhor se alinhar às necessidades e habilidades pessoais) como uma intervenção que visa:
Energia: O Job Crafting fornece oportunidades para customizar o trabalho de modo a melhor apoiar o bem-estar, sendo associado a melhorias em energia, engajamento e satisfação no trabalho.
Propósito: O Job Crafting permite que os funcionários customizem seus trabalhos para que melhor se alinhem com seus pontos fortes, paixões, interesses e valores. Estudos mostram que funcionários que praticam Job Crafting reportam níveis mais altos de significado (meaningfulness) em seus trabalhos. O Job Crafting de perspectiva (Perspective crafting) é a forma específica de Job Crafting focada em alterar a percepção sobre o trabalho.
Estresse: Customizar o trabalho através do Job Crafting pode reduzir o estresse e aumentar a adaptabilidade ao identificar e ajustar as condições que prejudicam o bem-estar.
Conclusão e Próximos Passos
Os achados em conjunto dessas três fontes são claros: o Job Crafting é uma intervenção poderosa para o bem-estar, mas sua eficácia a longo prazo depende de uma perspectiva dupla e holística.
Para alcançar ganhos sustentáveis em felicidade e bem-estar, não basta apenas incentivar os funcionários a mudarem a si mesmos (ou apenas o trabalho); é vital que eles compreendam que ambos — o self e o job — são maleáveis.
Líderes e organizações devem:
Promover a Mentalidade de Crescimento Dupla: Treinar os funcionários para verem suas capacidades e suas funções como blocos de construção flexíveis.
Apoiar o Job Crafting Intencional: Fornecer estruturas e o suporte gerencial necessário (negociação e recursos) para que as mudanças propostas pelos funcionários sejam substanciais, alinhadas com seus propósitos e sustentáveis.
Promover Prosperidade de Mão Dupla: que o processo de Job Crafting possa servir de ponte entre os interesses, fortalezas e propósitos do individuo e os desafios e estrategia da empresa.
Ao integrar o Job Crafting em uma estratégia que aborda o bem-estar de forma abrangente — tratando Propósito, Energia e Gestão do Estresse — e que reconhece a maleabilidade inerente tanto do indivíduo quanto do contexto, as empresas podem construir ambientes de trabalho verdadeiramente mais felizes e engajadores.
Deixo o link para que vocês leiam as 3 fontes em detalhe!
Getting Unstuck: The Effects of Growth Mindsets About the Self and Job on Happiness at Work
Career Development, Job Crafting, and Well-being: An Evidence-Based Positive Psychological Intervention
https://mapadetalentos.com.br/granada2024/GranadaJobCrafting.pdf
Work Wellbeing Playbook
https://worldwellbeingmovement.org/wp-content/uploads/2024/11/Work-Wellbeing-Playbook.pdf




